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uma das coisas assombrosas de pensar é ver você, meu bem, pegando esses textos e jogando na minha cara algo que os críticos tristes e solitários tentam jogar. coisas como: é igual a quê? foi pra quem? foi pra quê? não me jogue o que não é meu. todo texto lido é de quem lê, me diga então você - e agora coloco a ponta dos meus três maiores dedos direitos no seu peito pra tentar contato, uma ponte, um teste rápido das batidas do seu peito, se você respira, eu prossigo - diga então você, o que andou lendo nesses textos? o que você fez comigo, meu bem? com essas palavras que eu escrevo? que merda toda você pôs em cima ou que coisa mais charmosa você colocou ali? já não sou eu aqui, já não é você. o prazer é esse. os versos são rápidos para que seja enfático, rápido, hardcore - agora imagino que hard continue a ser rápido e que core venha de coração, então que exploda suas artérias, meu bem, que seja coração saindo pela boca . eu não vou entender o que escrevi exatamente como escrevi, talvez bem perto eu me aproxime daquela que eu fui quando escrevi, talvez lembre e chore agarradinha dando tapinhas nas minhas próprias costas, mas não a mesma. então me diga você, o que você vê nos meus poemas quando eu não estou olhando? talvez nada. e assim discretamente eu volto a minha posição de paisagem e já não é minha nenhuma dessas neuróticas frases.



 Nan Goldin, 198X.

Postado por renata flávia às 13h09
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o almoço no restaurante é como criar ilha em um oceano de gente. tantas conversas e não caber em nenhuma, ser esse punhado de terra que não se dissolve na água. ficar amontoada no silêncio. o olho solto escorregando de mesa em mesa, de cadeira em cadeira, às vezes duvidando da realidade e desistindo do sonho. estive endurecida naquela posição mirando o mundo a garfadas. tentando não despencar dentro de mim mesma, porque esse agitado de pessoas ao redor me deixa encravada nessa ilha, pés enterrados tentando descobrir mais sobre como é existir. parece, diversas vezes, que um sopro qualquer pode me fazer despencar estômago a dentro e provavelmente eu não conseguisse me mover por um longo tempo. enfrentar esses perigos cansa tudo. então o passo deve ser rápido, a garfada deve ser seguida em sequências, mirando no horizonte, na rua distante - quase sinto o cheiro da fumaça dos carros que voam lá fora. outras duas garfadas e já estou equilibrada. ponho os pés firmes no chão. posição da montanha. te enfrento mais uma vez, minha ânsia.

 



A vista inesperada - Remedios Haro.

Postado por renata flávia às 09h24
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                                   Lillian Bassman, 1959.

 

estive mergulhada nesse mar de pele
tuas curvas me dobravam feito onda
violentas violentas
eu subia em teus ombros pra respirar
as costelas, as omoplatas
toda tua ossada era escada
para trazer de volta o ar
alto bem alto
pra depois afundar
triturei fatias de mim em tuas mãos
não me perdi nem por um segundo
esse caminho de subir e cair
sempre foi mais em mim
procurando procurando
eu cheguei no mais profundo grito
esse que costura o corpo na alma
uivando uivando
uma loba no oceano

cravando suas garras

Postado por renata flávia às 10h00
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andei pelo corredor esotérico, poesia brasileira, literatura estrangeira, culinária, cataria de cada estante algum caco pra tentar colar esse corpo, mas não há essa possibilidade. dedo riste apontado nas lombadas dos livros e o peito destroçado apontado pro vazio. uma cadeira seca, um almoço estragado, quilômetros de mim percorridos entre a sala e o quarto. eram sinais: as agendas, a música na tv, a falta do comprimido, eram sinais de que havia algo a fazer. nada fiz. o mundo fechou-se. o cachorro parou de latir. no fundo, dentro dos espaços fechados da casa, só havia uma tentativa inútil de existir. unhas pintadas, vendaval, duas garrafas, caíram três pingos e o céu abriu. meu corpo, notas perversas, mensagens eletrônicas. fechar os olhos e resistir.

woodman
Francesca Woodman, 1980.

Postado por renata flávia às 11h56
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Meu Perfil

BRASIL, Nordeste, TERESINA, Mulher

♦ ♦ ♦ ♦ O Lustre ♦ ♦ ♦ ♦

Sou Renata Flávia, desde mil novecentos e oitenta e nove zona sul de Teresina. Bicho fêmea formada em estudos antigos, que gosta de magia e plantas, escreve poesia.

O Lustre de Carne existe desde dois mil e sete, é aqui que escrevo, testo, deliro, faço desse espaço uma prática e um sopro de escrita automática. Um presente que só sonha.

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